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Cultura e sabores

Herança açoriana e sabores da Ilha: festas, tradições e ostras

Como os açorianos chegaram à Ilha em 1748, onde essa herança aparece e o que traz à mesa: ostras, tainha, farinha de mandioca e festas.

Por Equipe MagicXP9 min de leitura

Quando os açorianos chegaram à Ilha

A Ilha de Santa Catarina já tinha gente antes dos açorianos. A povoação de Nossa Senhora do Desterro foi fundada por volta de 1673 pelo bandeirante Francisco Dias Velho, e em 1738 foi criada a Capitania da Ilha de Santa Catarina, com fortalezas para defender o litoral. Em 1746, por decisão do Conselho Ultramarino, Portugal resolveu estimular a vinda de famílias dos Açores, e um edital de 1747 prometeu ajuda de custo, ferramentas, animais e terra.

O povoamento efetivo aconteceu entre 1748 e 1756. Um texto do Portal da Acorianidade, do Governo dos Açores, fala em cerca de 6.000 colonizadores açorianos e meia centena de madeirenses. Outros autores usam números menores, como cerca de 5.000 pessoas, então trate o total como ordem de grandeza.

Onde a herança ainda aparece

Dessa época nasceram freguesias que hoje são bairros, como Trindade, Lagoa da Conceição, Santo Antônio de Lisboa, Rio Vermelho, Canasvieiras e Ribeirão da Ilha, segundo o mesmo texto. Alguns lugares para ver essa herança de perto:

  • Santo Antônio de Lisboa: o povoamento europeu começou por volta de 1698, com o padre Mateus de Leão e vinte casais, mas os açorianos se tornaram maioria. A freguesia foi criada em 1750, a igreja é de meados do século XVIII e foi tombada pelo município em 1975, e o núcleo central, de quatro quadras, também é protegido. Ao lado do Sobrado do Imperador, onde Dom Pedro II se hospedou em 1845, fica a primeira rua calçada da Ilha, calçada por causa dessa visita, segundo o estudo.
  • Ribeirão da Ilha: comunidade de descendentes de açorianos das ilhas Terceira, Pico e Faial, segundo a arquiteta Eliane Veras da Veiga. A freguesia recebeu cerca de 50 casais, e a igreja de pedra foi sagrada em 1806. O distrito tem uma rota gastronômica criada por lei municipal em 2007.
  • Sambaqui: vizinho de Santo Antônio de Lisboa, forma com ele uma das rotas gastronômicas mais frequentadas da cidade, segundo a imprensa local, e há produtores de ostras entre os dois bairros.
  • Lagoa, Canasvieiras e Rio Vermelho: freguesias do período, mantêm festas do Divino, e na Lagoa há uma comunidade de rendeiras de bilro.
  • Centro histórico: o Desterro original. É junto à Catedral que o ciclo do Divino se abre: em 2026, em 9 de maio.

Uma observação de quem estuda o tema: a “cultura açoriana”, como a conhecemos hoje, também foi construída ao longo do século XX. Segundo a historiadora Elis Regina Barbosa Angelo, a valorização das raízes açorianas ganhou força em meados do século XX e depois dos anos 1970. Isso não tira o valor das tradições, só mostra que elas são sempre reinterpretadas.

Tradições que atravessam o ano

  • Festa do Divino: vem de Portugal e, acredita-se, chegou a Santa Catarina com os açorianos em meados do século XVIII. Seus símbolos são a bandeira, o cortejo e a coroa, e é Patrimônio Cultural Imaterial de Florianópolis. Em 2026, foram 15 festas de comunidade.
  • Boi de Mamão: brincadeira com personagens como a Bernúncia, a Maricota, a Cabra, o Doutor e a Benzedeira, tradicionalmente encenada entre o Natal e o Carnaval. É associada à cultura açoriana, mas um artigo da UFSC lembra que não há registro dela nos Açores como existe aqui, e que há quem aponte outras matrizes, como migrantes do Nordeste e influência africana. O primeiro registro em Florianópolis, de 1872, é de José Boiteux.
  • Renda de bilro: feita com fios presos a bilros sobre uma almofada, é tratada como tradição trazida pelas açorianas. Na Lagoa, o turismo ainda alimenta a arte e há iniciativas para preservar a técnica.
  • Engenhos de farinha: os açorianos encontraram a farinha de mandioca feita pelos povos nativos e adaptaram a ela seus engenhos de madeira. Segundo a Epagri, a produção cresceu a partir de 1790. Entre os engenhos antigos, um, da família Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, ainda produzia farinha em 2013.

Ostras: de alternativa à pesca a cartão-postal

Santa Catarina é o centro da criação de moluscos no Brasil. Em abril de 2026, o secretário estadual de Pesca e Aquicultura disse que o estado responde por 97% da produção nacional de moluscos, cerca de 8,7 mil toneladas por ano (ostras e outros moluscos), e que Florianópolis, Palhoça, Bombinhas e Governador Celso Ramos concentram mais de 90% da atividade. Fontes de 2008 e 2021 falam em 95%. A ostra do Pacífico surgiu como alternativa à pesca artesanal nos anos 1980 e ganhou escala nos anos 1990.

Produção de ostra do Pacífico por município de Santa Catarina em 2021 (Epagri, citada em estudo do IFSC)
MunicípioToneladas
Florianópolis1.340,63
São José491,00
Palhoça95,00
Governador Celso Ramos66,00
Porto Belo25,00
Bombinhas21,10
São Francisco do Sul8,00
Total do estado2.046,73

Florianópolis respondeu por cerca de dois terços do total. Segundo o mesmo estudo, a capital tem cerca de 60 produtores: uns 10 entre Santo Antônio de Lisboa e Sambaqui e uns 50 no Ribeirão da Ilha. Muitos abriram restaurantes para complementar a renda, e a cidade é Cidade Criativa da Gastronomia da UNESCO desde 2014. A Fenaostra, a festa da ostra, teve a primeira edição em 1999.

A tainha e a mesa de todo dia

A safra da tainha vai de 1º de maio a 31 de julho e envolve cerca de 1.500 pescadores artesanais, segundo a Prefeitura (safra de 2022) e a imprensa (2026). Em 2026, a Rota da Tainha reuniu 26 praias, entre elas Campeche, Ingleses e Jurerê. As aberturas de 2026, no Campeche e no Moçambique, tiveram missa, bênção dos pescadores, roda de rendeiras e Boi de Mamão: a tradição açoriana aparece no calendário do peixe.

A Prefeitura conta os peixes no Tainhômetro: 144.727 em 2022 e 257.069 em 2023 (contagem até 31 de julho), com a Lagoinha do Norte, no norte da Ilha, em primeiro lugar, com 61.189. A pesca segue cotas federais (em 2026, 8.168 toneladas para o Sul e o Sudeste, segundo a imprensa local), e bandeiras verde e vermelha avisam se o surfe é permitido enquanto os cardumes estão perto. Na cozinha, o pirão d’água com peixe frito é apontado como combinação nascida dos engenhos de farinha e da pesca.

Calendário de festas e temporadas

As datas vêm de calendários de 2023 a 2026 e mudam todo ano. Confirme com a paróquia, a Prefeitura ou os organizadores antes de planejar.

Festas e temporadas ligadas à herança açoriana e à mesa da Ilha
O quêQuandoOnde e observações
Ciclo da Festa do DivinoEm 2026, de maio a outubro, com abertura em 9 de maioComunidades de toda a Ilha, como Lagoa da Conceição (22 a 24 de maio) e Ribeirão da Ilha (23 e 24 de maio)
Divino no norte e na Baía NorteEm 2026: Santo Antônio de Lisboa, 5 a 13 de setembro; Canasvieiras, 18 a 20 de setembro; Rio Vermelho, 16 a 18 de outubroParóquias de cada comunidade. A de Rio Vermelho foi adiada de setembro e encerrou o ciclo
Safra da tainha1º de maio a 31 de julhoRota da Tainha, com 26 praias em 2026. Aberturas no Campeche e no Moçambique
Festival da TainhaEm 2023 (2ª edição): 27 de junho a 29 de julho. Sem datas de 2026 encontradasMercado Público e Largo da Alfândega, no Centro
Fenaostra6 a 12 de outubro de 2026 (24ª edição). Em 2023: 31 de outubro a 5 de novembroCentroSul, no Centro. As datas já mudaram
Dia de homenagem à renda de bilro21 de outubroData lembrada pela imprensa local. Não encontramos a lei que a instituiu

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Como aproveitar e ajudar a cuidar

A herança açoriana segue viva nas festas, na renda e na mesa da Ilha. Comprar direto de produtores e rendeiras, perguntar de onde vem a ostra e respeitar as regras de praia na safra da tainha ajuda a manter esse patrimônio.

Perguntas frequentes

Quando os açorianos chegaram a Florianópolis?

O povoamento efetivo da Ilha de Santa Catarina aconteceu entre 1748 e 1756, depois de um edital de 1747 que prometeu ajuda de custo, ferramentas, animais e terra. O Portal da Acorianidade fala em cerca de 6.000 colonizadores açorianos, mas outros autores usam números menores, como cerca de 5.000, então trate o total como ordem de grandeza.

Onde ver a herança açoriana em Florianópolis?

Santo Antônio de Lisboa, Ribeirão da Ilha, Lagoa da Conceição, Canasvieiras e Rio Vermelho são freguesias do período. Santo Antônio de Lisboa tem a igreja de meados do século XVIII e o Sobrado do Imperador, e o Ribeirão da Ilha tem uma rota gastronômica criada por lei municipal em 2007.

Quando é a Festa do Divino em Canasvieiras, em Florianópolis?

Em 2026, a festa de Canasvieiras foi de 18 a 20 de setembro, dentro de um ciclo do Divino que foi de maio a outubro. As datas mudam todo ano, então confirme com a paróquia ou a Prefeitura antes de planejar.

De onde vêm as ostras de Florianópolis?

Florianópolis respondeu por cerca de dois terços da ostra do Pacífico de Santa Catarina em 2021, segundo a Epagri citada em estudo do IFSC, e a capital tem cerca de 60 produtores, uns 10 entre Santo Antônio de Lisboa e Sambaqui e uns 50 no Ribeirão da Ilha. Pergunte ao restaurante de onde vem a ostra e como está a oferta.

Quando é a safra da tainha em Florianópolis?

A safra vai de 1º de maio a 31 de julho e envolve cerca de 1.500 pescadores artesanais. Em 2026, a Rota da Tainha reuniu 26 praias, entre elas Campeche, Ingleses e Jurerê.

Fontes

  1. Governo dos Açores, Portal da Acorianidade: Joel Pacheco, Florianópolis, a 10ª Ilha dos Açores (colonização de 1748 a 1756 e freguesias)
  2. Adriano Comissoli, Do arquipélago ao continente (Aedos, UFRGS): o edital de 1747
  3. Jaqueline Henrique Cardoso (ANPUH, 2011), Entre a ruína e a preservação: patrimônio de Santo Antônio de Lisboa (também a decisão de 1746 e o total de cerca de 5.000 pessoas)
  4. Eliane Veras da Veiga, O conjunto arquitetônico do Ribeirão da Ilha: importância da sua preservação
  5. Enilto de Oliveira Neubert (Epagri, 2013), Santa Catarina: o berço da industrialização da mandioca
  6. Juliane Mendes Rosa La Banca, Brincadeira, música e folclore: o Boi-de-mamão do NDI da UFSC
  7. Elis Regina Barbosa Angelo (2013, Revista Bilros), O saber-fazer rendas de bilros na Lagoa da Conceição
  8. NSC Total, Ilha da moça faceira, da velha rendeira tradicional (renda de bilro e 21 de outubro)
  9. NSC Total, O que é a Festa do Divino e onde acontece em Florianópolis (origem e símbolos; calendário de outro ano)
  10. Floripa.com, Calendário das festas do Divino em Florianópolis 2026 (inclui o reconhecimento como patrimônio imaterial)
  11. Floripa.com, Festa no Rio Vermelho encerra o Ciclo do Divino Espírito Santo 2026
  12. Carolinne Schlickmann (IFSC), Ostras da Ilha de Santa Catarina: uma análise turística da rota gastronômica do Ribeirão da Ilha (cita a Epagri, 2021)
  13. Tribuna PR (22/4/2026), reportagem sobre a produção de ostras no Brasil (secretário estadual e Epagri)
  14. ACIF, Fenaostra, 10ª edição (2008): 95% da produção de moluscos
  15. Floripa.com, Fenaostra 2026 tem data confirmada
  16. NSC Total, Fenaostra 2023 (21ª edição)
  17. NSC Total (2021), Sabores açorianos: tradição revisitada (pirão d’água, engenhos e pescado)
  18. NSC Total, As belezas e os encantos do bairro que é um pedacinho de Portugal em Florianópolis (Santo Antônio de Lisboa, rota gastronômica)
  19. Prefeitura de Florianópolis (2/5/2023), início da safra da tainha, Tainhômetro e bandeiras
  20. Prefeitura de Florianópolis (26/6/2023), 2ª edição do Festival da Tainha no Mercado Público
  21. SCTODODIA (24/4/2026), Safra da tainha 2026 começa em Florianópolis (Rota da Tainha e cotas)
  22. Guia Ingleses, Safra da Tainha 2026 é aberta oficialmente em Florianópolis
  23. Correio SC (31/7/2023), Florianópolis registra recorde de captura de tainhas na safra de 2023 (Tainhômetro)
  24. UNESCO, Florianópolis, Cidade Criativa da Gastronomia (2014)
  25. Levantamento editorial (outubro de 2026): estudos acadêmicos, publicações da Epagri, comunicados da Prefeitura e imprensa local

Texto publicado em outubro de 2026 a partir de fontes públicas: estudos acadêmicos (UFRGS, UFSC, IFSC, ANPUH), publicações da Epagri e do Governo dos Açores, comunicados da Prefeitura de Florianópolis e imprensa local. Números de produção e de captura são ordens de grandeza que variam de ano para ano, e as datas das festas mudam a cada edição.

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